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SENTINDO
SAUDADES...
Saudade
não se teoriza, se sente. É presença da ausência. Mas há saudade e saudade.
Saudade cruel e saudade doce, boa. A saudade cruel é aquela do que está longe.
Do que vislumbramos, conhecemos até, mas não temos dentro de nós.
Essa dói,
machuca, tira o sono, maltrata, rouba o riso, modifica o olhar, entristece.
Mas
não é saudade, de fato, é falta. Falta do que, ou de quem não se têm. Falta
é verbo que tem cheiro de vazio, é lacuna; saudade é substantivo que se
transforma em advérbio de intensidade, intensidade do sentir. É sensação,
é plenitude, é lembrança. E somos afortunados. Não há em outra língua
verbete para traduzir esse sentimento.
Saudade boa, saudade, saudade,
essa é doce. Dói? Dói sim, mas não é cruel,
é uma dorzinha boa de sentir,
leve, que enche o peito, faz sonhar, sorrir, eleva o olhar para o passado,
gera suspiros e é, como afirmei, presença da ausência. É presença do que, ou
de quem, tivemos e teremos sempre dentro de nós.
Longe eu sinto saudades do céu
de Brasília, porque ele está dentro de mim. Aqui em Brasília eu
sinto saudades do mar de minha terra. Porque ele está dentro de mim.
Então é
um sentir bom. E que pede música e que a música atrai.
Saudade é identificação
da ausência.
E nada torna mais presente o que está ausente do que sentir
saudades.
Saudade é vida. Só morremos quando esquecidos, quando não somos
mais ausentes em ninguém e isso quer dizer que não existimos mais em nenhuma
memória.
Saudade boa é consciência de algo ou alguém.
Não sentimos nunca saudades do que não nos
emocionou, provocou sorrisos,
prazer, amor, êxtase, sentimentos verdadeiramente
bons.
E as músicas, os poemas, os textos, as canções, não servem para outra
coisa senão para traduzir o que não conseguimos definir; para falar por nós,
ratificar o que sentimos.
Então, se por acaso lhe vem à mente uma música
antiga ou actual, brega ou moderna, ou se uma paisagem ou um céu estrelado ou
uma imagem do passado ou de alguém, lhe surgir na mente; ou se um trecho de um
poema, de um texto qualquer, lhe provocar um suspiro, e de repente você
sentir saudades. Não se espante, nem se entristeça. Aproveite. Agora se alguém
disser que sente saudades de você, comemore duplamente. Triste
é não ter do que ou de quem sentir saudades. E mais triste ainda é não
deixar saudades em ninguém. (Maine
Virgínia Carvalho)
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